UMA EDUCAÇÃO INDIVIDUALIZADA, NUMA CRISE DOCENTE, É POSSÍVEL EM PORTUGAL ?
- Aline Veroneze
- 5 de jan.
- 4 min de leitura
A crise docente não é meramente uma questão numérica, mas um sintoma de um sistema que necessita de adaptação para reter e atrair talentos.

Promover a inovação e o desenvolvimento de talentos não é uma missão somente para empreendedores. A educação também é um setor em que é necessária visão estratégica para atrair, reter profissionais e qualificá-los de modo que se tenha resultados de aprendizagem coerentes com o contexto que evolui cada vez mais rapidamente.
Em tempos de crise docente, muitas vezes os esforços são orientados para o elementar: ter um professor em sala de aula. No entanto, se tirarmos o foco de colmatar essa falta específica, encontramos a oportunidade de pensar no sistema como um todo. Para ter uma perspetiva empreendedora, de um gestor de talentos, o #Nem1SemProfessor entrevistou o empresário e investidor luso-sul-africano, conhecido por sua participação no programa "Shark Tank Portugal", Tim Vieira.
Tim decidiu empreender na área da educação depois da paternidade, mas a perceção da necessidade de inovação na educação começou antes: recebia nos seus empreendimentos profissionais com pouco senso crítico, sem as ferramentas sociais necessárias, que não foram preparados satisfatoriamente para a vida profissional. Percebeu, depois, que os interesses e habilidades dos próprios filhos poderiam ser desenvolvidos mais plenamente dentro de uma outra estrutura de educação, com uma metodologia que levasse em consideração o indivíduo.
Ao iniciar a trajetória de empreendedorismo na educação, a primeira percepção de Tim foi a de que para inovar era necessário ter o aluno no centro, com uma educação mais individualizada e que incluísse as ferramentas digitais que fazem parte do contexto de socialização e das habilidades dessas novas gerações.
Tim Vieira argumenta que a ênfase excessiva do sistema educativo, em especial o público, na infraestrutura física, em detrimento das necessidades pedagógicas e do bem-estar dos alunos e professores, contribui para um ambiente que pode desencorajar a responsabilidade individual e a busca por propósito.
O projeto também funciona sob uma nova perspetiva da profissão docente, com menos burocracia e mais foco tanto na produção das aulas, quanto no acompanhamento dos alunos. O modelo sugere uma redefinição do papel do professor, permitindo-lhe concentrar-se na sua função essencial de inspirador e mentor, o que pode ser um fator crucial para a atração e retenção de novos talentos na profissão.
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4, Educação de Qualidade, visa "assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos". A meta 4.c, em particular, foca-se em "aumentar substancialmente o número de professores qualificados". Ao redefinir o papel do professor para um foco inspirador e de coaching, e ao oferecer ambientes de trabalho flexíveis, o modelo pode tornar a carreira docente mais apelativa para novos talentos, incluindo profissionais de outras áreas.
Tim defende que é uma visão simplista a ideia de que aliviar a carga burocrática é o melhor que se pode fazer pelos professores que já estão em sala de aula. Ele explica que dar ferramentas cognitivas e tecnológicas são parte essencial da construção da solução.
A formação contínua e de excelência é essencial neste modelo, uma vez que a distinção entre criadores de conteúdo e learning coaches permite uma especialização que pode levar a uma formação mais direcionada e eficaz para cada função.
A avaliação contínua dos educadores, baseada no progresso do aluno, promoveria um ciclo de melhoria pedagógica.
A integração ponderada da tecnologia pode otimizar os processos de aprendizagem e libertar os professores para funções de maior valor acrescentado, mitigando a pressão sobre os recursos humanos.
Em síntese, o Modelo Brave Generation Academy (BGA) traz como proposta de solução para a crise na educação os seguintes elementos:
Ambiente de aprendizagem flexível: Estruturas que promovem a colaboração e a autonomia.
Papel dual do educador: Distinção entre os criadores de conteúdo e aqueles que dão acompanhamento individualizado do aluno, libertando ambos de excesso de tarefas administrativas.
Personalização e autonomia: Ritmo de aprendizagem adaptado a cada aluno, com flexibilidade de horários e currículo ajustável.
Aprendizagem baseada na experiência: Encorajamento da experimentação e da aprendizagem a partir do erro.
Utopia ou realidade? Como levar o novo modelo para as massas?
Há escolas em Portugal em que o problema é a falta de professores para determinadas disciplinas, mas há outras em que também co-existem outras demandas estruturais, como uma rede de internet ineficiente ou equipamentos obsoletos. Assim, pensar em modelos de educação que exigem eficiência humana e tecnológica pode soar a alguns como utópico.
O #Nem1SemProfessor perguntou sobre como viabilizar que um modelo de educação mais eficaz seja implementado em larga escala.
Entra em cena aqui, outro ODS, o 17, que valoriza as "parcerias para o desenvolvimento". Tim ressalta que a colaboração entre o setor privado (como a Brave) e o setor público é fundamental. O setor privado pode contribuir com financiamento, conhecimento em gestão e inovação, enquanto o Estado mantém a responsabilidade final pela reforma e pela implementação de políticas públicas que suportem estas inovações.
Com o que viveu na Brave, Tim acredita na possibilidade de escalabilidade deste formato de educação, que poderia ser implementado inclusive no ensino público português: o modelo demonstrou capacidade de expansão, com 60 hubs em nove países, e está a ser testado em escolas públicas na África do Sul para abordar a escassez de professores e a entrega curricular.
A crise de professores em Portugal não é um desafio insuperável, mas exige uma vontade política urgente para implementar novas soluções.
A mensagem é clara: é imperativo advogar por modelos que valorizem o bem-estar docente e permitam que a paixão pela inspiração dos alunos seja o foco principal. Para Tim, falta ainda coragem e vontade política para a adoção de abordagens inovadoras que possibilitem construir um futuro educacional resiliente e alinhado com os princípios de desenvolvimento sustentável.
Essa plataforma é parte da investigação “Nas redes pela educação: comunicação estratégica a serviço da cidadania”, financiado por fundos da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior da República Portuguesa., no âmbito do projeto 2023.01746.BD.




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